sábado, 25 de abril de 2015

EXPRESSÕES DO SOLA SCRIPTURA - OS 39 ARTIGOS DA IGREJA ANGLICANA

2.3. Os Trinta e Nove Artigos da Igreja Anglicana (1563)

No rescaldo da “Reforma Protestante”, o surgimento da Igreja da Inglaterra (Anglicana) se deu de uma forma completamente diferente, tendo por motivo imediato o desentendimento do rei inglês com a Igreja Católica no que respeitava à anulação do seu casamento com sua então esposa.

Por isso destacamos os 39 artigos da Igreja Anglicana, já que tiveram uma origem muito diversa dos demais.

Vejamos:

Em 1563, foi escrito o grande documento da Reforma Anglicana: Os Trinta e Nove Artigos de Religião, que foram aprovados pelo Sínodo (na época de Rainha Maria I, os 42 Artigos foram revogados), modificando, parcialmente, os Quarenta e dois Artigos de Religião, documento este que demonstra a posição doutrinal da Igreja Anglicana em relação ao Catolicismo Romano e ao Protestantismo Reformado, sendo que evidenciou a “via média” deste ramo do Cristianismo, ficando conhecido como “Solução de Elizabeth”, pois Elizabeth I rejeitou o extremo de protestantismo e catolicismo romano e procurou a terceira opção. Nesse mesmo ano, a rainha Elizabeth I escreveu ao rei Ferdinando, regente católico-romano da Espanha, declarando que a Igreja da Inglaterra era a continuação da antiga Igreja Católica, mas não subserviente ao papa: “Nós, e nossos súditos, Deus seja louvado!, não somos seguidores de quaisquer religiões novas ou estrangeiras, mas a mesma religião que Cristo ordena, com as antigas sanções da Igreja Católica, as quais com a mente e a voz os mais antigos pais unanimemente aprovaram'.”
Em 1570, o Congresso aprovou os Trinta e Nove Artigos de Religião como o princípio que todos os ministros ordenados, universitários e os funcionários públicos devem aceitá-lo. Os 39 Artigos esclareceram a posição doutrinal da Igreja Anglicana diante da Igreja Romana e da Igreja Protestante.”
História do Anglicanismo”, disponível no sítio virtual da Igreja Anglicana do Brasil, em http://anglicanchurch.weebly.com/historia.html.

O Artigo VI trata “Da suficiência das Escrituras Sagradas para a Salvação”, e possui o seguinte texto:

A ESCRITURA Sagrada contém todas as coisas necessárias para a salvação; de maneira que tudo aquilo que nela não se lê, nem com ela se pode provar, não deve exigir-se de pessoa alguma que o creia como artigo de fé, nem deve julgar-se como requisito necessário para a salvação. Pelo nome de Escritura Sagrada entendemos aqueles livros canónicos do Antigo e do Novo Testamento, de cuja autoridade nunca houve qualquer dúvida na Igreja. Os livros chamados comumente “Os Apócrifos,” não formam parte das Escrituras Canónicas; e, portanto, não devem ser usados para estabelecer doutrina alguma; nem devem ser lidos publicamente na Igreja. Recebemos e contamos por canónicos todos os Livros do Novo Testamento, segundo comumente são recebidos.
Os Artigos da Religião Cristã”, disponível no sítio eletrônico da Igreja Anglicana Reformada do Brasil, em http://igrejaanglicana.com.br/os-39-artigos/, sem destaque no original.

Embora haja na expressão “tudo aquilo que nela [a Escritura] não se lê, nem com ela se pode provar, não deve exigir-se de pessoa alguma que o creia como artigo de fé”, uma efetiva proclamação do Sola Scriptura, não deixa de restar certa ambiguidade da declaração em relação à Tradição e ao Magistério da Igreja.

De fato, aparentemente a Igreja Anglicana, na prática, não segue o Sola Scriptura, tendo aderido à tríplice fonte de Escritura-Tradição-Razão, preconizada por Richard Hooker.

Sobre esse tema colhemos:

Toda a metodologia teológica anglicana se estrutura a partir do tripé de Hooker: Escritura – Tradição – Razão. O Rev. Richard Hooker viveu entre 1553-1600, em Londres. Ele foi ordenado na Igreja da Inglaterra e, posteriormente, nomeado pela rainha Elizabeth I como Mestre do Templo, tornando-o capelão da “Inns of Court”, uma parte fundamental do sistema de ensino jurídico Inglês. Depois de dez anos ele se mudou para uma paróquia país perto de Canterbury, onde, nos restantes cinco anos de sua vida, ele conseguiu pôr em marcha a sua magnum opus As Leis da Política Eclesiástica”. Esta obra marcou profundamente o pensamento inglês, influenciado inclusive o surgimento do liberalismo de John Look (1632-1704) que a cita diversas vezes. A obra de Hooker foi a primeira defesa sistemática da doutrina da Igreja da Inglaterra após a separação com Roma e por isso ele é considerado o primeiro grande teólogo anglicano. Até mesmo o Papa Clemente VIII (1536-1605) ficou impressionado com seu trabalho.
A obra de Hooker é amplamente reconhecida por afirmar que a teologia anglicana é baseada na “Escritura, Tradição e Razão”, indo tão longe a ponto de criar uma analogia com um “banquinho de três pernas”.
Ricardo, Rodson, “O que é Anglo-Catolicismo?”, disponível no endereço eletrônico http://grupojovemanglicano.blogspot.com.br/p/anglo-catoliscimo.html.

E ainda:

Escritura-Tradição-Razão: o Tripé de Hooker
O Rev. Richard Hooker, sacerdote inglês do século XVII, tem muito a contribuir ao modo de se fazer teologia anglicano. Na sua época, havia várias controvérsias de ordem teológica, as quais ele abordou de forma criativa e conclusiva.
Quanto ao papel das Escrituras Sagradas, Hooker evitou os dois extremos: a posição romana de que as Escrituras são insuficientes e que a Tradição deve suprir a insuficiência e a posição puritana de que é pecaminosa e ilegítima a liberdade da Igreja tomar decisões sobre o que as Escrituras silenciam.
Hooker refletiu sobre essa e outras matérias como fizeram seus contemporâneos levando em consideração a Bíblia, a Tradição, principalmente, a Igreja Primitiva, (a interpretação contínua das Escrituras, sua aplicação), e a Razão (o bom senso, o senso comum de um povo em determinado tempo e lugar, a capacidade humana de simbolizar, ordenar, compartilhar e comunicar a experiência).
Com Hooker e outros e com os Artigos houve a possibilidade de desenvolver a leitura crítica, histórica, contextual, e teologicamente trinitária e pastoral.
Takatsu, Sumio, “Existe uma teologia caracteristicamente anglicana?”, disponível no sítio eletrônico da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, endereço eletrônico http://www.ieab.org.br/ieab/index.php?option=com_content&task=view&id=33.

Considerando o exposto, a Igreja Anglicana, apesar de aparentemente haver proclamado o Sola Scriptura, não o adota efetivamente.


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EXPRESSÕES DO SOLA SCRIPTURA - A CONFISSÃO DE FÉ DE GENEBRA DE JOÃO CALVINO

2.2. Confissão de Fé de Genebra (1536)

Uma das primeiras confissões de fé “reformadas” (calvinistas), foi redigida talvez pelo próprio João Calvino em 1536, razão pela qual a destacamos.

Conforme o sítio virtual “Creeds of Christendom”:

A Confissão de Genebra foi creditada a João Calvino em 1536 por Beza, que disse que Calvino a escreveu como uma fórmula da doutrina cristã adaptada à igreja de Genebra. Estudos mais recentes atribuem-na a William Farel, mas com toda a probabilidade Calvino teve uma influência considerável sobre o documento. De fato, os registros do Senado de Genebra indicam que a confissão foi apresentada por ambos, Farel e Calvino, aos magistrados, que a receberam e a reservaram para um exame mais detalhado.
The Confession of Faith - Confession de la Foy”, tradução livre do texto em inglês, encontrado em http://www.creeds.net/reformed/gnvconf.htm.

Proclama o Sola Scriptura logo em seu primeiro artigo:

I. A Palavra de Deus
Primeiro nós afirmamos que desejamos seguir somente a Escritura como regra de fé e religião, sem misturar a ela qualquer outra coisa que possa ter sido elaborada pela opinião dos homens à parte da Palavra de Deus, e sem querer aceitar para o nosso governo espiritual qualquer outra doutrina do que aquela transmitida a nós pela mesma Palavra sem adição ou diminuição, consoante o comando de Nosso Senhor.
Idem, sem destaques no original.

Nesta confissão o Sola Scriptura é expressa e solenemente declarado, como se vê, enquanto um princípio abstrato que sustenta logicamente as demais confissões, sendo, inclusive, adequadamente posto em primeiro lugar.

Cabe destacar que a expressão “sem misturar a ela qualquer outra coisa que possa ter sido elaborada pela opinião dos homens à parte da Palavra de Deus”, sem dúvida expressa o rompimento com a Tradição e o Magistério da Igreja Católica Apostólica Romana.

Tal como ocorre no Luteranismo, esse rompimento levará somente à imposição de outras opiniões, de outros homens, no caso, do próprio Calvino.

É fato sabido que Calvino não exitou em lançar à fogueira tanto as obras quanto as pessoas que dele dissentiram.



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quarta-feira, 22 de abril de 2015

EXPRESSÕES DO SOLA SCRIPTURA - PRIMEIRA CONFISSÃO DE FÉ REFORMADA - 67 ARTIGOS DE ZUÍNGLIO

II – Confissões e Declarações de Fé dos inícios do Protestantismo

A partir da ruptura de Lutero, diversos outros "reformadores" entraram em cena e produziram suas próprias teses e doutrinas contrárias à Igreja Católica Apostólica Romana.

Essas doutrinas, então, passaram a erguer congregações (seitas, denominações). E estas passaram a redigir confissões ou declarações de sua fé, a fim de diferenciarem-se da Tradição Católica e, à medida que esse movimento se expandia, das outras congregações protestantes.

Muitas dessas confissões ou declarações expõem o que a congregação entende como sendo o Sola Scriptura para seus fiéis.

Vejamos algumas das principais.

2.1. A primeira declaração de fé protestante: os 67 artigos de Ulrico Zuínglio (1523)

Alderi S. Matos, em artigo no sítio virtual do Instituto Presbiteriano Mackenzie, esclarece:

Os 67 Artigos de Zuínglio são considerados não somente a primeira confissão reformada, mas a primeira confissão protestante. Ao contrário das 95 Teses de Lutero, eles não só abordaram um vasto conjunto de doutrinas e práticas, mas deram considerável atenção a alguns princípios basilares do novo movimento protestante. Seu autor, Ulrico Zuínglio (1484-1531), o fundador da tradição reformada, começou a ser impactado pela Bíblia a partir de 1516, quando pároco em Einsiedeln. Ao tornar-se o sacerdote da principal igreja de Zurique, em 1519, seus sermões e preleções alicerçados no Novo Testamento assumiram um crescente tom reformista. O contexto dos 67 Artigos foi a Primeira Disputa de Zurique, em 29 de janeiro de 1523, convocada pelo conselho municipal para resolver a controvérsia religiosa que havia surgido na cidade. O conselho aprovou as proposições de Zuínglio e determinou que os ministros daquele cantão pregassem somente o que tinha apoio nas Escrituras. Esse foi o marco inicial da Reforma Suíça.
Os 67 artigos de Ulrico Zuínglio (1523)”, endereço eletrônico, http://www.mackenzie.br/7043.html.

Os Artigos começam com a seguinte declaração, que ressoa a resposta de Lutero em Worms dois anos antes:

Eu, Hulrich Zwingli, confesso ter pregado na nobilíssima cidade de Zurique os artigos e conclusões que passarei a expor. Encontram-se baseados na Sagrada Escritura, a “theopneustos”, ou seja, a [palavra] inspirada por Deus. Ofereço-me para defender estes artigos, e estou disposto a ser ensinado, caso não tenha compreendido corretamente a Sagrada Escritura; mas, qualquer correção que me faça permanecer fundamentado somente na Sagrada Escritura.
Os artigos com as 67 Conclusões de Ulrich Zwingli”, tradução e notas de Ewerton B. Tokashiki, http://www.academia.edu/2419171/As_67_Conclusões_de_Ulrich_Zwingli, sem destaques no original.

Merecem destaque, em relação ao Sola Scriptura, os seguintes artigos:

1. Todos os que dizem que nada vale o Evangelho se não é confirmado pela Igreja, erram e ofendem a Deus.
4. Erra qualquer um que busque, ou indique outra porta. De fato, é um assassino das almas, e também um ladrão.
5. Consequentemente, todos quantos ensinam falsas doutrinas dizendo que são iguais ao Evangelho, ou que valem mais do que este, também erram. Eles ignoram o que é o Evangelho.

Nesta declaração, vemos que “o fundador da tradição reformada”, antes mesmo de apresentar suas teses, afirma basear-se exclusivamente na Escritura, admitindo discuti-las exclusivamente com base na Escritura. No primeiro artigo de sua declaração, Zuínglio afirma a auto-autenticação do Evangelho, uma rejeição da afirmação de que o Cânon Bíblico requer a Autoridade ou a Tradição da Igreja. Aparentemente os artigos 4 e 5 condenam essa mesma Tradição e esse mesmo Magistério eclesiásticos.



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sexta-feira, 17 de abril de 2015

EXPRESSÕES DO SOLA SCRIPTURA - LUTERO E O LUTERANISMO

I - Lutero e o Luteranismo

Os chamados cinco Solas, são normalmente atribuídos a Lutero, embora ele mesmo não tenha enunciado, por exemplo, o Sola Scriptura, de maneira abstrata, mas apenas incidentalmente tratando de temas variados em seus escritos.

Já em 31 de outubro de 1517 ele escreveu, entre as teses que apresentou questionando as práticas em relação às indulgências:

18. Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas [as almas no purgatório] se encontram fora do estado de mérito ou de crescimento no amor.

Lutero, Martinho, "Obras selecionadas, volume 1, os primórdios, escritos de 1517 a 1519", São Leopoldo: Editora Sinodal, Porto Alegre: Concórdia Editora, 1987, p. 24, sem destaque no original.

No final de 1518, Lutero escreveu ainda em sua "Apelação do Fr. Martinho Lutero ao Concílio": “O poder do papa não está contra ou acima da majestade da Escritura e da verdade, mas a favor e abaixo dela”. (Idem, p. 231).

E em 1521 apresentou sua célebre resposta em Worms:

Visto que Vossa S[ereníssima] Majestade e Vossas Senhorias exigem uma resposta simples, quero dá-la sem cornos e sem dentes do seguinte modo: A não ser que seja convencido por testemunhos das Escrituras ou por argumento evidente (pois não acredito nem no papa nem nos concílios exclusivamente, visto que é certo que os mesmos erraram muitas vezes e se contradisseram a si mesmos) — estou vencido pelas Escrituras por mim aduzidas e minha consciência está presa nas palavras de Deus — não posso nem quero retratar-me de nada, porque agir contra a consciência não é prudente nem íntegro.

"Discurso do Dr. Martinho Lutero perante o Imperador Carlos e os príncipes na assembléia de Worms", 1521, em Lutero, Martinho, "Obras selecionadas, volume 6", São Leopoldo: Editora Sinodal, Porto Alegre: Concórdia Editora, 1996, p. 126, sem destaques no original.

Examinando esses discursos, encontramos o perfil com que Lutero via o Sola Scriptura: as verdades cristãs devem ser determinadas pelo exame da Escritura, admitida no máximo a “razão evidente”, e o ensinamento da Igreja deve ser avaliado segundo a Escritura, considerando “a compreensão totalmente livre das Escrituras, como ele propugna no “Comentário de Lutero sobre a 13ª tese a respeito do poder do Papa (enriquecido pelo autor)” de 1519 (“Obras Selecionadas, volume 1”, p. 315).

Em 1580, algumas décadas após a morte de Lutero (em 1546), as dissenções entre os próprios luteranos levaram-nos à elaboração da chamada Fórmula de Concórdia, na qual exporiam a visão luterana do Sola Scriptura:

Da Suma, Regra e Norma de Acordo com a Qual Deve Ser Julgada Toda Doutrina e Devem Ser Explicados e Decididos, de Maneira Cristã, os Erros Que Surgiram.
1. Cremos, ensinamos e confessamos que somente os escritos proféticos e apostólicos do Antigo e do Novo Testamento são a única regra e norma, segundo a qual devem ser ajuizadas e julgadas, igualmente, todas as doutrinas e todos os mestres, conforme está escrito: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para os meus caminhos”, SI 119. E S. Paulo: “Ainda que um anjo vindo do céu vos pregue diversamente, seja anátema”, Gl l.
Outros escritos, entretanto, dos antigos ou dos novos mestres, seja qual for o nome deles, não devem ser equiparados à Escritura Sagrada, porém, todos lhe devem ser completamente subordinados, não devendo ser recebidos diversamente de ou como mais do que testemunhas da maneira como e quanto aos lugares onde essa doutrina dos apóstolos e profetas foi preservada nos tempos pós-apostólicos.
2. E, visto que, imediatamente após os tempos dos apóstolos e ainda em vida deles, penetram falsos mestres e hereges, contra os quais se compuseram, na igreja primitiva, Symbola, isto é, confissões breves e categóricas, que foram consideradas como a fé e a confissão unânimes, universais, cristãs, da igreja ortodoxa e verdadeira, a saber, o Símbolo Apostólico, o Símbolo Niceno e o Símbolo Atanasiano, nós os confessamos por nossos e rejeitamos, com isso, todas as heresias e doutrinas introduzidas na igreja de Deus contrariamente a eles.
3. Quanto ao cisma, em matéria de fé, ocorrido em nosso tempo, consideramos como consenso e declaração unânimes de nossa fé e confissão cristãs, especialmente contra o papado e seu falso culto, idolatria e superstição, e contra outras seitas, e como nosso símbolo desse tempo, a primeira e inalterada Confissão de Augsburgo, entregue ao Imperador Carlos V, em Augsburgo, no ano de 1530, por ocasião da grande dieta imperial, juntamente com a Apologia dela e os Artigos redigidos em Esmalcalde, no ano de 1537, e, naquele tempo, subscritos pelos principais teólogos.
E visto que tais assuntos concernem também ao leigo comum e à salvação de sua alma, abraçamos, outrossim, o Catecismo Menor e o Maior do Dr. Lutero, conforme incluídos em suas obras, como a bíblia dos leigos. Contêm eles tudo o que a Sagrada Escritura trata mais desenvolvidamente e que o cristão tem de saber para a sua salvação.
Com esse padrão, conforme acima participado, devem concordar todas as doutrinas, e o que lhe é contrário deve ser rejeitado e condenado como oposto à unânime declaração de nossa fé.
Dessa maneira, retém-se a distinção entre a Sagrada Escritura do Antigo e do Novo Testamento e todos os demais escritos, ficando somente a Escritura Sagrada como o único juiz, regra e norma, de acordo com que, como única pedra de toque, todas as doutrinas devem e têm de ser discernidas e julgadas quanto a serem boas ou más, corretas ou incorretas.
Os demais Symbola, todavia, e os outros escritos citados, não são juizes como o é a Escritura Sagrada, porém, apenas testemunho e exposição da fé, que mostram como, em cada tempo, a Escritura Sagrada foi entendida e explicada na igreja de Deus, no respeitante a artigos controvertidos, pelos que, então, viviam, e ensinamentos contrários a ela rejeitados e condenados."

Drehmer, Darci (editor), "Livro de Concórdia", São Leopoldo: Sinodal, Canoas: Ulbra, Porto Alegre: Concórdia, 2006, pp. 499-501, sem negritos no original.

É importante destacar desse texto a superioridade da Escritura, a adesão aos símbolos anteriores da Igreja enumerados, e a manutenção da Confissão de Augsburgo e dos catecismos de Lutero como “a bíblia dos leigos”.

Isso mostra que no Luteranismo, o Sola Scriptura é o ponto de partida, permitindo a ruptura com o Catolicismo. Mas, a partir dessa ruptura o Luteranismo criou sua própria doutrina e tradição. Muito embora mantenha-se proclamando a superioridade da Escritura como único juiz de todos os outros escritos (que lhe são então subordinados), o Luteranismo adotou uma doutrina, a qual, rejeitada, exclui sem dúvida a comunhão entre a pessoa e a congregação.



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quinta-feira, 16 de abril de 2015

EXPRESSÕES DO SOLA SCRIPTURA - INTRODUÇÃO

EXPRESSÕES DO SOLA SCRIPTURA

Introdução

Sola Scriptura (em latim “Somente a Escritura”, ou seja, somente a Bíblia, apenas a Bíblia) é o princípio formal do Protestantismo, que lhe permitiu um desenvolvimento conceitual e doutrinário distinto do Catolicismo e do Ortodoxismo Oriental ao romper com a Tradição e com o Magistério Eclesiástico, e aceitar exclusivamente o recurso ao texto bíblico. Chega a ser visto como um dogma protestante.

Sola Scriptura é o ponto fundamental de ruptura com o Catolicismo, e, portanto, o esteio da dissidência no Cristianismo Ocidental. Tanto que John MacArthur, ardoroso defensor do Sola Scriptura, por exemplo, reconhece que, derrubada essa doutrina específica, todos os pontos de discussão cairiam com ela (“A suficiência da palavra escrita”, em “Sola Scriptura numa época sem fundamentos”, São Paulo: Cultura Cristã, 2000, p. 135).

Poderíamos definir o Sola Scriptura com a célebre expressão do famoso pregador batista inglês do Século XIX, Charles Spurgeon:

A Bíblia, toda a Bíblia, e nada mais que a Bíblia é a religião dos protestantes.
Do sermão "The Eternal Name", em Spurgeon, Charles Haddon, "Spurgeon's Sermons Volume 01: 1855", em Christian Classics Ethereal Library, disponível no endereço eletrônico http://www.ccel.org/ccel/spurgeon/sermons01.html, tradução livre do texto em inglês.

Infelizmente não é algo tão simples. O Protestantismo é por definição fragmentário desde a origem. Movido pelo próprio Princípio do Sola Scriptura, que pretende a exclusão de toda autoridade e de toda tradição na determinação do conteúdo da fé cristã, as congregações protestantes enfrentam uma constante dissidência e fragmentação. Não há, portanto, um credo comum, aceito por todos os protestantes.

Assim, mesmo sendo o Sola Scriptura o que mais se aproxima de um dogma do Protestantismo em geral, sofre mesmo este de uma variedade considerável de expressões práticas nos diversos segmentos (congregações, seitas, denominações) protestantes.

Por isso, não podemos apresentar uma definição aplicável sem mais a todo o Protestantismo.

Pelo contrário. para compreender o que significa Sola Scriptura no Protestantismo é preciso percorrer o acidentado caminho apresentado pelos "reformadores", que iniciaram a dissidência no Cristianismo Ocidental, pelas confissões e declarações de fé que vêm sendo produzidas desde então na tentativa de padronizar a crença ao menos no interior de uma denominação, pelos escritos que hoje propagam tendências cada vez mais fundamentalistas e isolacionistas, por vezes contrárias até mesmo à redação de uma confissão ou declaração de fé, e pelos poucos autores que se dedicaram a escrever sobre o Sola Scriptura, embora normalmente estes já professem alguma definição denominacional.


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quinta-feira, 26 de março de 2015

PORQUE ESCREVO SOBRE O SOLA SCRIPTURA

Por que escrevo sobre (e contra) o Sola Scriptura

Desde que o Protestantismo surgiu na Alemanha, nos anos 1500, produziu uma contínua e exponencial fragmentação do Cristianismo no Ocidente. O mesmo se deu no Brasil, especialmente no final do século XX, quando o Protestantismo avançou nessas terras antes predominantemente católicas.

É preciso reconhecer os pontos positivos do Protestantismo. Como sua única regra de fé e de moral é o texto da sua Bíblia (sem alguns livros que eram tradicionais no Cristianismo até então, e que são mantidos pelos católicos), os protestantes sempre deram elevado valor à tradução, difusão e estudo pessoal da Bíblia. Também produziram vasta literatura teológica e sobretudo prática (o que de certo modo é contraditório com o Sola Scriptura), além da música, e mesmo um estilo de vida teocêntrico.

Outros pontos positivos do Protestantismo, particularmente no Brasil, foi o Cristocentrismo, e a ênfase do Pentecostalismo na ação concreta e cotidiana do Espírito Santo. Longe de concordar inteiramente com as práticas e as pregações dos protestantes, é preciso reconhecer que essa abordagem influenciou até mesmo os católicos a voltarem-se mais para o Cristo e invocarem o Espírito Santo, sem, no entanto, abandonar o que é próprio da tradição católica, especialmente a veneração a Maria e aos Santos.

O que é lamentável no Protestantismo em geral, e na expansão protestante no Brasil em particular, é que esse desenvolvimento e expansão se deu mediante, principalmente, a apostasia (inapropriadamente chamada de conversão) dos católicos.

Não se pode negar que os protestantes levaram a um cristianismo prático muitos ex-católicos "de batismo" (ou nominais, que não praticavam efetivamente a fé católica), muitos dos quais haviam se perdido completamente, e já há muito não entravam numa igreja.

Entretanto, não deixa de ser, especialmente no caso de "católicos praticantes", colher onde outro semeou. Pois a apostasia desses católicos que migraram para congregações protestantes é decorrente de, primeiro, estes já acreditarem em Deus e em Jesus Cristo, e, segundo, já reconhecerem que a Bíblia é o Livro Sagrado do Cristianismo. A partir desses pressupostos o discurso pela “conversão” do católico cuida simplesmente de convencer que o Catolicismo não está em conformidade com a Bíblia enquanto Texto Sagrado. Para isso, utiliza passagens bíblicas que enfatizam a proibição de imagens e a exclusividade da mediação de Jesus Cristo para a salvação dos homens, como forma de contestar a veneração de Maria e dos Santos, ente outras crenças e práticas católicas (que na verdade têm fundamento bíblico e são confirmadas por tradições antiquíssimas, mas esse conhecimento nem todos os católicos possuem).

Esse discurso é embaraçoso para a maioria dos católicos, que nunca se preocupou muito com esse tipo de contestação, tão comum era ser católico e tão comuns e corriqueiras sempre foram no Brasil as práticas católicas. Ao mesmo tempo, é um discurso, em geral, convincente, pois aparentemente simples e objetivo.

Essa prática e abordagem eram muito comuns nos anos 80, e especialmente 90. De uns anos para cá, parece ter diminuído. Talvez porque o próprio movimento protestante no Brasil já tenha se expandido a um ponto tal que segue agora um desenvolvimento mais calmo e estável. Talvez porque a nova geração de protestantes brasileiros, quer convertidos faz muito tempo, quer nascidos em ambiente protestante, já não tenham o ardor missionário do novo converso, e até mesmo já questionem práticas e posturas de sua tradição – e respeitem outras tradições por isso. Talvez porque o movimento ecumênico arrefeceu os ânimos, crescendo uma atitude de respeito mútuo. Talvez porque os católicos que ainda se mantenham como tais já não são tão pouco instruídos e tão "inocentes" quanto os católicos de vinte anos atrás, e estão decididos a permanecer na Igreja Católica Apostólica Romana. Provavelmente, tudo isso e muito mais.

Infelizmente, apesar de todos os esforços do Ecumenismo, continua essa atitude por parte de alguns, que entendem que “converter” um fiel católico é até uma missão dada por Deus.

A religião, ou congregação, que cada um abraça e segue, é questão de consciência pessoal. O Brasil é um país laico, sem religião oficial, que preza a liberdade religiosa, de opinião e de culto, e é bom que seja assim. Não cabe a quem quer que seja, em pleno século XXI, querer impor uma religião, seita, ou opinião a terceiro, senão, até certo ponto, pela via do convencimento e da argumentação, que sempre devem ser respeitosas. Com efeito, a liberdade religiosa é um direito, e a religião faz parte do patrimônio pessoal de cada um. Portanto, a abordagem agressiva é um desrespeito à pessoa, e pode ensejar reparação civil, e mesmo sanção penal.

Em outros termos, se alguém quer apostatar da fé católica, seja para o Protestantismo, seja para outra religião, é questão que fica entre a pessoa e Deus. E a consciência de cada um deve ser seu único juiz neste mundo.

Entretanto, é lamentável que católicos deixem a Igreja Católica Apostólica Romana sem jamais terem-na conhecido realmente, e sem conhecerem sequer o básico dos fundamentos da tradição protestante (tradições talvez fosse mais adequado) e suas respectivas limitações. Deixam uma tradição que nunca conheceram bem e vão para uma outra tradição que não conhecem minimamente, muito menos criticamente.

Nesse quadro é que emerge como da maior importância a questão do Sola Scriptura (somente a Escritura), isto é, somente a Bíblia como fonte de fé e de moral.

Sola Scriptura é o princípio protestante adotado desde Lutero, Calvino e outros, no início do movimento protestante, e que continua na base de todo o Protestantismo, sendo até radicalizado pelas seitas ou congregações mais novas e independentes.

O Sola Scriptura foi adotado como forma de romper com a tradição católica. Com efeito, a tradição católica reconhece a autoridade do Papa e da Igreja. Sem romper com essa tradição, não seria possível desprezar os ensinamentos e atos da Igreja Católica e romper com sua estrutura como fizeram Lutero e Calvino ao apostatarem (pois eles eram católicos). Ao adotarem a Bíblia como única fonte de fé e de moral e darem a ela a sua própria interpretação (um dos subprincípios do Sola Scriptura é o livre exame da Bíblia) eles criaram doutrinas diferentes da Tradição Católica e romperam com a Igreja Católica Apostólica Romana, rejeitando sua Autoridade, Tradição e Magistério.

O Sola Scriptura, portanto, é o princípio fundamental do Protestantismo. Também é praticamente o único ponto comum a todas as denominações protestantes, embora se possa apontar variações na expressão prática desse princípio.

E é o Sola Scriptura que está no fundamento do discurso contra o Catolicismo tecido à base de reiteradas citações de diversos trechos do texto bíblico.

O grande erro dos católicos, que se sentem embaraçados diante desse discurso, é que se esquecem de que a Igreja Católica Apostólica Romana não segue o Sola Scriptura, assim como as Igrejas Ortodoxas Orientais que também vêm da época dos apóstolos (Grega, Copta, Etíope, etc.).

O outro grande erro dos católicos é não saber que o Sola Scriptura é um princípio muito questionável. A meu ver há argumentos contundentes contra ele, mesmo sem recorrer à Tradição e ao Magistério da Igreja. Vejo como muito mais simples a defesa bíblica da Tradição Católica em si, do que a defesa do princípio do Sola Scriptura.

Por isso escrevo sobre o Sola Scriptura, para ajudar a dissipar a ignorância, principalmente por parte dos católicos. Não se trata de modo algum de entrar numa espécie de luta por fiéis – que nem é a postura da Igreja Católica, no Brasil ou no mundo. Dou aqui uma pequena contribuição a que os católicos saibam que o discurso protestante não é tão óbvio quanto pode até parecer em certos momentos.

Pelo contrário, o que tenho constatado é que a aplicação prática do Sola Scriptura vem encontrando dificuldades e divergências insuperáveis. Muito ao contrário do projeto, até romântico, dos chamados "reformadores" (Lutero, Calvino, e outros) a Bíblia sozinha não produziu unidade de fé e de culto pela unidade do texto. O livre exame da Bíblia, e nada mais que a Bíblia, produziu opiniões as mais diversas, divisões e mais divisões. Na verdade, o abandono da Tradição Católica, somente fez surgir milhares de novas tradições protestantes.

Diversamente, apesar dos 500 anos de crítica protestante, juntamente com as críticas marxista, cientificista, ateísta e outras, a Igreja Católica Apostólica Romana continua sólida, e unida em torno da autoridade máxima neste mundo, o Papa, o servo dos servos de Deus, sucessor de São Pedro, a rocha (Petrus) sobre a qual o Cristo construiu a sua Igreja (Mateus 16,18).


Cledson Moreira Galinari

terça-feira, 10 de março de 2015

PORQUE O SOLA SCRIPTURA É CONTRADITÓRIO A SI MESMO

PORQUE O SOLA SCRIPTURA É CONTRADITÓRIO A SI MESMO

Uma frase como "é proibido proibir" é evidentemente contraditória em si mesma. Se é proibido estabelecer qualquer proibição, a proibição de proibir não pode ser estabelecida.

Há outros exemplos mais sutis do mesmo tipo de afirmação autocontraditória. Se apresento todo um raciocínio para dizer que não posso raciocinar, evidentemente me contradigo e minha afirmação é autoinvalidada. Do mesmo modo, se alguém diz negar toda filosofia, na verdade está apenas apresentando uma filosofia, anti intelectualista talvez. E se alguém diz que nega toda doutrina, não está senão apresentando uma doutrina – contradiz-se a si mesmo.

O Sola Scriptura é justamente desse último tipo de afirmativa autocontraditória. É a doutrina, o princípio, a tradição, ou talvez o dogma, que nega qualquer doutrina, princípio, tradição ou dogma, ao dizer "a Escritura sozinha", "somente a Escritura".

Evidentemente, quem defende o Sola Scriptura tende a dizer: não é uma doutrina, está na Bíblia!

Não está na Bíblia, uma vez que os textos bíblicos foram criados e circulavam independentes uns dos outros quando foram escritos, tendo sido reunidos e compilados como um único livro apenas dois séculos depois que o último foi escrito. Logo, nenhum deles pode ter enunciado a doutrina do Sola Scriptura.

Mas, exclusivamente para argumentar, admitamos que o Sola Scriptura pudesse estar na Bíblia. Nesse caso, seria uma interpretação da Bíblia.

Com efeito, qualquer texto em si é mudo. Ele somente diz alguma coisa a quem o lê e o interpreta. Dizer que algo está na Bíblia não é senão interpretar a Bíblia, criando uma doutrina a respeito do que a Bíblia diz.

Diria então o hipotético defensor do Sola Scriptura: mas é a doutrina bíblica correta!

Existem milhares de doutrinas bíblicas que se dizem as corretas e se contradizem umas às outras.

De qualquer modo, dizer que o Sola Scriptura é a doutrina bíblica correta já implica, por si mesmo, que se trata de uma doutrina bíblica.

Uma doutrina bíblica que nega a validade de qualquer doutrina bíblica – diz que a Escritura sozinha é que deve falar. Portanto, é uma doutrina inválida, que se contradiz a si mesmo.

O que Escritura diz, aliás, é que um reino dividido contra si mesmo não pode subsistir (Marcos 3, 24).

Cledson Moreira Galinari

sábado, 7 de março de 2015

PORQUE NEM TUDO ESTÁ NA BÍBLIA

Porque nem tudo está na bíblia

A Bíblia é o livro sagrado para o cristão, mas nem tudo em matéria de fé e de conduta para o cristão está na Bíblia.

A proposta de que tudo que importa para o cristão em matéria de fé e de moral está na Bíblia, e somente nela, com a exclusão da Tradição e do Magistério da Igreja, é chamada de Sola Scriptura, expressão em latim que significaSomente a Escritura”, ou, como alguns traduzem, “a Escritura Sozinha”, apenas a Bíblia.

Evidentemente, partindo desse princípio, a própria Bíblia necessariamente deveria ensinar exatamente isso. Porém isso é impossível.

De fato, é esquecido pela maioria das pessoas que a Bíblia não caiu do céu, escrita, editada, numerada, encadernada, com índice, notas, etc. Não! Ao longo de cerca de 2000 anos homens dos mais variados tempos e lugares (de Moisés a São João Evangelista) se dedicaram a, sob inspiração do Espírito Santo, e usando de suas capacidades intelectuais e do conhecimento e perspectiva de que dispunham, escrever textos que, depois, foram reconhecidos pela comunidade de fé como inspirados por Deus.

Esses textos eram escritos, cada qual a seu tempo, cada qual num rolo. Isso mesmo, num rolo. Esse rolo era desenrolado e lido. Por isso na Bíblia encontramos: “no rolo do livro está escrito a meu respeito ...” (Salmo 40, 8); “vi (...) um livro, um rolo escrito por dentro e por fora... (Apocalipse 5, 1); "foi-lhe dado o livro do profeta Isaías. Desenrolando o livro ..." (Lucas 4,17, Bíblia Sagrada Ave Maria).

Esses rolos circulavam separados, e eram reunidos em coleções, bibliotecas, nas sinagogas dos judeus, e depois nas igrejas dos cristãos. Mas eles iam surgindo e circulando independentemente. Cada um era um livro, rolo, independente. Por isso mesmo cada grande parte da Bíblia é chamada de livro, e não de parte. A Bíblia, Livros em grego, é uma biblioteca, hoje editada e reunida em um volume encadernado. Mas isso só ocorreu muito tempo depois.

É verdade que o Antigo Testamento estava pronto na época de Cristo. E mais ou menos no final do século I (lá pelo ano 100) estavam escritos todos os livros do Novo Testamento. Só que eram livros, rolos, textos separados, que circulavam independentes uns dos outros.

Até o século IV (ou seja, entre os anos 300 e 400), embora esses escritos estivessem prontos, como foram escritos por pessoas diferentes, em locais e momentos diferentes, eles ainda não haviam sido reunidos. Ainda não havia sido estabelecido que eles integrariam a Bíblia, e que esta teria apenas esses livros, e não tantos outros que circulavam na época.

Assim, ao longo do século IV a Igreja definiu a lista desses livros, mediante a orientação de suas autoridades e dos concílios realizados na época. Isso se deveu em grande medida à circulação de diversos livros da seita dos gnósticos, que se passavam por evangelhos.

Nessa época também o livro ganhava um novo formato, não mais de rolo, mas de códice (ou códex): várias folhas de papel dobradas, postas umas após outras, costuradas juntas, e enfim encadernadas com a colocação de uma capa externa. Esse formato, que é o que nós utilizamos até hoje, permitiu que um volume muito maior de texto fosse reunido num único volume.

E foi nessa época que os livros da Bíblia, antes soltos e independentes, passaram a ser reunidos em um ou poucos volumes, em formato de códice. O livro conhecido como Códice Vaticano, e outro conhecido como Códice Sinaítico, as bíblias mais antigas que chegaram até nós, são dessa época.

Ora, quando cada um daqueles textos, ou livros, foi escrito (até o ano 100 mais ou menos), não havia Bíblia. Não era possível então que qualquer deles enunciasse que tudo está na Bíblia, que somente o que está na Bíblia deve ser considerado pelo cristão para sua fé e sua conduta, etc. Ou seja, “Somente a Bíblia” é algo que não está na Bíblia! Não está de jeito nenhum, por simples impossibilidade lógica.

Assim, quando lemos na Bíblia, na segunda carta que São Paulo escreveu a São Timóteo, que “toda Escritura é inspirada por Deus e é útil para ensinar, para argumentar, para corrigir, para educar conforme a justiça (2 Timóteo 3, 16), temos a exaltação do valor da Bíblia, que nessa época era apenas o Antigo Testamento, mas não a proclamação da sua suficiência e exclusividade. São Paulo não está advertindo São Timóteo de que nada mais a não ser a Escritura deve ser considerado, até porque, os seus ensinamentos ainda não faziam parte dessa Escritura.

E quando lemos na Bíblia que nada deve ser acrescentado ou subtraído deste livro (Apocalipse 22, 18-19) ou desta Lei (Deuteronômio 4,2), tais textos estão se referindo ao próprio livro em que isso está escrito. Não existia a Bíblia como livro para que essas passagens se referissem a ela.

Do mesmo modo, quando lemos na Bíblia que ninguém deve pregar um evangelho diferente (Gálatas 1, 6-9), o texto, da autoria de São Paulo, não está proclamando a exclusividade dos evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, e muito menos repelindo a Tradição Apostólica ou o Magistério da Igreja. Ele escreve lá pelos anos 50 depois de Cristo, e os Evangelhos somente seriam escritos entre os anos 60 e 100. Ele está apenas defendendo seu anúncio da boa notícia (evangelho, em grego) de que a salvação veio por meio do sacrifício de Cristo e da sua ressurreição, contra os que pretendiam impor aos não judeus todas as práticas dos judeus como condição para a salvação. Esse era o evangelho diferente que São Paulo repelia. A leitura completa da Carta aos Gálatas esclarece isso.

Enfim, nenhum desses textos bíblicos e nem nenhum outro apoia ou poderia apoiar a proposta de que todo ensinamento de fé e de moral para o cristão está na Bíblia. Qualquer texto bíblico considerado em seu devido contexto necessariamente tem um sentido diferente disso.

O que a Bíblia contém é justamente o contrário. Ela mostra que Jesus, o Cristo, instituiu a Sua Igreja sobre Pedro, o primeiro Papa (“tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”, Mat. 16, 18), e que lhe conferiu autoridade (“tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu”, Mat. 16, 19). Ela mostra também que Jesus lhe prometeu o Espírito Santo, que ensinaria muitas outras coisas (João 16, 12-13). E lemos também, em Atos, capítulo 15, como, diante de uma divergência sobre a correta doutrina, a questão é levada a Pedro e os Apóstolos, e como eles decidem e ensinam com a autoridade da Igreja de Cristo. Eles dizem: “decidimos, o Espírito Santo e nós” (Atos 15, 28).

A Bíblia, portanto, não ensina, e nem poderia ensinar, que apenas o que se encontra nela deve ser considerado pelo cristão. Ela ensina, entretanto, que tudo quanto é ensinado pela Igreja instituída por Jesus Cristo deve ser norma para o cristão.

Cledson Moreira Galinari


Nota: citações bíblicas da Bíblia da CNBB, exceto quando expresso em contrário.